Estamos ensinando meninos a serem fortes… ou apenas a esconderem quem são? - NILCE - Cadê a Chave!
Nos últimos dias vi uma reportagem sobre o aumento dos casos de feminicídio. Números absurdos. Assustadores.
Em certo momento, a repórter disse algo que ouvimos com frequência:
“Desde cedo meninos são encorajados a serem fortes e a repudiar a fraqueza.”
Mas será que é isso mesmo?
Na verdade, muitos meninos não são ensinados a repudiar a fraqueza.
Eles são ensinados a repudiar características humanas.
Quando um menino escuta que “homem não chora”, ele não está sendo treinado para ser forte.
Ele está sendo ensinado a ignorar uma parte essencial da própria humanidade.
E isso cobra um preço lá na frente.
Porque não existe nada mais corajoso do que encarar a própria dor.
Olhar para os próprios fantasmas.
Reconhecer as próprias emoções.
Sufocar sentimentos não é força.
É fuga.
E quem aprende a engolir a própria dor muitas vezes acaba descontando isso em alguém mais fraco.
E isso não é força.
Isso é covardia.
Pense bem.
Um homem que não consegue lidar com rejeição…
que reage com agressividade…
que não consegue construir vínculos afetivos…
isso é força?
Ou é justamente o contrário?
A verdadeira força está na capacidade de se reinventar, ceder, perdoar, recomeçar.
Isso sim é difícil.
É fácil agir pela impulsividade.
Difícil é regular as próprias emoções.
Existe uma metáfora que explica isso muito bem.
Quando uma árvore cai com um vento fraco, muita gente culpa o vento.
Mas muitas vezes o problema não é o vento.
O problema é que aquela árvore não teve a chance de desenvolver raízes profundas.
Ela foi podada.
Podada não para crescer saudável,
mas para se ajustar ao ambiente —
para não atrapalhar uma fachada, um fio elétrico, um espaço urbano.
Não foi uma poda para o bem da árvore.
Foi para o conforto do entorno.
Quando você poda demais, sem pensar na saúde da árvore,
ela cresce frágil.
E quando o vento vem… ela cai.
Não foi culpa do vento.
Foi falta de raiz.
Com pessoas acontece algo parecido.
Quando meninos e meninas são educados reprimindo partes humanas importantes — sensibilidade, empatia, expressão emocional — eles crescem sem ferramentas para viver em sociedade.
Sem saber lidar com frustração.
Sem saber lidar com rejeição.
Sem saber construir vínculos.
E hoje existe algo ainda mais preocupante.
Essa “poda” não acontece só em casa ou na escola.
Ela também acontece nas redes sociais.
Existem pessoas lucrando com discursos que reforçam exatamente esse tipo de mentalidade:
a ideia de que sentir é fraqueza,
que empatia é inferioridade,
que agressividade é força.
Os algoritmos amplificam isso.
E quando essa mensagem se espalha em escala gigantesca, o resultado pode ser devastador.
Podemos acabar criando uma geração de homens incapazes de construir relações afetivas saudáveis.
Homens solitários, frustrados e emocionalmente despreparados.
E em casos extremos, essa incapacidade pode se transformar em violência.
Essa é a dimensão da tragédia que estamos vivendo.
Por isso desenvolver habilidades humanas não é frescura.
É essencial.
Ensinar crianças a reconhecer emoções, lidar com frustração, expressar sentimentos e construir vínculos é uma das formas mais importantes de prevenir violência no futuro.
Porque força de verdade não é esconder sentimentos.
Força é ter coragem de ser humano.

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